Vivemos em um mundo em disputa, moldado pela modernidade, que nos impôs uma vida competitiva, hierarquizada e acelerada. Nesse cenário, o ser humano se coloca como o centro da existência, consumindo vorazmente os recursos naturais, silenciando outras presenças e projetando futuros ilusórios como forma de escapar às responsabilidades do presente. No entanto, como alerta Ailton Krenak, o corpo da Terra e seu complexo ecossistema estão sobrecarregados e não suportam mais esse modelo civilizatório e de ocupação de mundo, que historicamente estabelece divisões entre homem e natureza, cidade e floresta, urbanidade e ancestralidade, cultura e natureza, gerando desequilíbrios e fragmentando mundos que deveriam coexistir em confluência.
Em contracorrente a essas perspectivas hegemônicas e binárias, a exposição “Interespécies: Cruzando Mundos” se apresenta como uma reflexão crítica sobre a emergência climática global, os impactos das ações humanas e o futuro ancestral. A mostra propõe a invenção de outros mundos possíveis, dissolvendo fronteiras geográficas, culturais e sociais ao invocar nossa ancestralidade, que nos ensina que somos parte intrínseca da natureza, pois somos a natureza.
O conceito “interespécies” repensa nossa sociabilidade e resgata saberes ancestrais indígenas e afro-brasileiros como ferramenta educativa para promover uma experiência do sujeito coletivo, possibilitando o enfrentamento de crises e desequilíbrios socioambientais e humanitários, bem como o reflorestamento dos imaginários. Surge, assim, uma possibilidade de vida que não é exclusivamente humana, animal, vegetal ou mineral, mas sim interespecífica, uma vez que somos seres interdependentes, compartilhantes e coabitamos o mesmo e único planeta.
Ao pensar o “cruzamento de mundos”, a exposição provoca uma fricção entre o ser humano e a vida, a natureza, a cidade, a arte e seu cotidiano, para que seja possível a fabulação de mundos mais plurais e diversos, que se afetem, mesclem, confundam e confluam em circularidade, assim como os rios que se ampliam e se fortalecem a cada encontro, como nos ensinou Nêgo Bispo. Estamos em Abya Yala, segundo a cosmovisão indígena, onde as fronteiras não existem, os limites se diluem e o cruzamento de mundos é contínuo, criando pontes, redes e caminhos construídos física, social e simbolicamente.
A 13ª Mostra 3M de Arte acontece como um grande encontro de biomas e culturas, conectando simultaneamente três importantes centralidades brasileiras: São Paulo (Parque Augusta), Campinas (Parque Taquaral) e Manaus (Galeria do Largo), que receberão exposições distintas e complementares. As mostras dialogam entre si por meio de obras inéditas dos artistas Olinda Tupinambá, Ziel Karapató, MAHKU, Luana Vitra, Ernesto Neto, Mônica Ventura e Karola Braga, que convidam os públicos a uma experiência imersiva na natureza e provocam reflexões sobre as dinâmicas de afetos e transformação que podem emergir quando alinhamos coração, corpo e espírito no ritmo da Terra.
Aline Ambrósio
Curadora